Jesus e os não judeus: encontros que anunciam a universalidade da salvação
Nos Evangelhos, Jesus
exerce a sua missão sobretudo no meio do povo de Israel. Ele próprio afirma: «Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da
casa de Israel» (Mt 15,24). Contudo, ao longo da narrativa evangélica,
surgem vários episódios em que Jesus contacta com estrangeiros, pagãos ou
grupos marginalizados do ponto de vista religioso. Esses encontros não são
meramente ocasionais: revelam, desde cedo, que a salvação trazida por Cristo se
destina a todos os povos.
Através destes
episódios, os Evangelhos deixam entrever a dimensão universal da missão de Jesus,
que culminará no mandato final: «Ide,
pois, fazei discípulos de todas as nações» (Mt 28,19).
Os Magos do Oriente: as nações que vêm adorar
O primeiro sinal desta
universalidade surge ainda na infância de Jesus. O Evangelho de São Mateus
relata a visita dos Magos vindos do Oriente (Mt 2,1–12). Estes sábios,
provavelmente astrólogos ou estudiosos das tradições orientais, não pertenciam
ao povo judeu. No entanto, reconhecem no Menino o «Rei dos Judeus» e
prostram-se diante d’Ele: «Entrando na
casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se, adoraram-no.»
(Mt 2,11)
Desde o início, Cristo
é apresentado como luz para todas as nações, cumprindo a profecia de Isaías: «As nações caminharão à tua luz» (Is
60,3).
O Centurião Romano: a fé que surpreende
Um dos episódios mais
significativos é o encontro com o centurião romano em Cafarnaum (Mt 8,5–13; Lc
7,1–10). Oficial do exército ocupante, símbolo do poder pagão, este homem pede
a cura do seu servo com uma humildade extraordinária:
«Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa; mas diz uma
palavra e o meu servo será curado.» (Mt 8,8)
Jesus admira-se e
declara: «Em verdade vos digo: não
encontrei em ninguém em Israel tão grande fé.» (Mt 8,10)
E acrescenta uma
afirmação de grande alcance: «Muitos virão
do Oriente e do Ocidente e sentar-se-ão à mesa com Abraão» (Mt 8,11). A
promessa feita a Israel abre-se claramente aos gentios.
A mulher siro-fenícia: a fé perseverante
Outro momento decisivo
ocorre na região de Tiro e Sídon, território pagão (Mt 15,21–28; Mc 7,24–30).
Uma mulher cananeia (ou siro-fenícia) suplica a cura da filha. Num primeiro
momento, Jesus responde de modo aparentemente restritivo, sublinhando a prioridade
da missão junto de Israel. Porém, perante a perseverança da mulher, que afirma
humildemente: «Também os cachorrinhos
comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos» (Mt 15,27), Jesus
exclama: «Ó mulher, grande é a tua fé!
Faça-se como desejas.» (Mt 15,28)
Este episódio revela
que a fé autêntica ultrapassa fronteiras étnicas e religiosas.
A Samaritana: o diálogo que rompe barreiras
Os samaritanos eram
considerados hereges pelos judeus, mantendo uma tradição religiosa própria. No
entanto, Jesus dirige-se a uma mulher samaritana junto ao poço de Jacob (Jo
4,1–42), rompendo várias barreiras — culturais, religiosas e sociais.
O diálogo conduz à
revelação da sua identidade messiânica. Muitos samaritanos passam a acreditar
n’Ele e afirmam: «Sabemos que Ele é
verdadeiramente o Salvador do mundo.» (Jo 4,42)
A expressão “Salvador
do mundo” ultrapassa claramente qualquer limitação nacional.
O leproso samaritano: o estrangeiro agradecido
No caminho para
Jerusalém, Jesus cura dez leprosos, mas apenas um regressa para agradecer — e
era samaritano (Lc 17,11–19). Jesus pergunta: «Não se encontrou quem voltasse para dar glória a Deus senão este
estrangeiro?» (Lc 17,18)
Mais uma vez, é um não
judeu quem manifesta a atitude mais plena de fé e gratidão.
A missão em território pagão: o geraseno
Ao atravessar o lago
para a região dos gerasenos (Mc 5,1–20; Lc 8,26–39), Jesus entra numa zona
maioritariamente pagã, integrada na Decápole. A libertação do homem possesso
por uma “legião” de demónios simboliza a vitória do Reino de Deus mesmo fora
das fronteiras de Israel. O homem curado torna-se anunciador na sua própria
terra.
Gregos que querem ver Jesus
Já próximo da Paixão,
alguns gregos que tinham ido a Jerusalém para a festa pedem: «Senhor, queremos
ver Jesus» (Jo 12,21). Este pedido antecede o anúncio da sua glorificação e
pode ser interpretado como sinal de que chegou o momento em que a salvação se
estenderá plenamente aos gentios.
O diálogo com Pilatos
Durante a Paixão,
Jesus dialoga com Pôncio Pilatos, representante do poder romano. Ao afirmar «O meu Reino não é deste mundo» (Jo
18,36), Jesus apresenta uma realeza que transcende fronteiras políticas e
nacionais.
Conclusão: da prioridade a Israel à missão universal
Os encontros de Jesus
com não judeus não são acidentais nem meramente ilustrativos. Eles revelam uma
pedagogia divina: a salvação é oferecida primeiro a Israel, mas destina-se a
toda a humanidade.
Os Evangelhos mostram
estrangeiros que reconhecem, antes de muitos israelitas, a identidade e o poder
de Cristo. A fé do centurião, a perseverança da siro-fenícia, a abertura da
samaritana e a gratidão do leproso estrangeiro tornam-se exemplos
paradigmáticos.
Esta dinâmica culmina
após a Ressurreição, quando o próprio Cristo envia os discípulos «a todas as
nações» (Mt 28,19). Assim, os encontros com pagãos e estrangeiros durante a
vida pública de Jesus não são episódios marginais, mas sinais proféticos da
Igreja nascente — universal por vocação e missão.
Em Jesus Cristo, «não
há judeu nem grego» (Gl 3,28): há apenas homens e mulheres chamados à mesma
salvação.
Com recurso ao ChatGPT
