Porque é que o padre eleva a hóstia e o cálice durante a Missa?

Porque é que o padre eleva a hóstia e o cálice durante a Missa?

História e significado de um dos gestos mais expressivos da liturgia

Entre os numerosos gestos que compõem a celebração da Eucaristia, poucos são tão marcantes como a elevação da hóstia e do cálice após a consagração. Nesse instante, o sacerdote ergue primeiro a hóstia consagrada e, em seguida, o cálice, enquanto a assembleia fixa o olhar sobre os santos mistérios. 

Trata-se de um gesto carregado de simbolismo, mas também de uma prática cuja história revela o modo como a Igreja foi aprofundando, ao longo dos séculos, a expressão da sua fé na presença real de Cristo na Eucaristia.

A liturgia dos primeiros séculos

Nos primeiros séculos do Cristianismo não existia a elevação da hóstia e do cálice como hoje a conhecemos. As descrições mais antigas da celebração eucarística, como as de São Justino Mártir ou de Santo Hipólito de Roma, testemunham uma liturgia sóbria, centrada na oração eucarística, na fração do pão e na comunhão dos fiéis.

O sacerdote tomava o pão e o vinho, pronunciava a oração de ação de graças e distribuía os dons consagrados à assembleia. Embora houvesse diversos gestos de bênção e apresentação dos dons, não existia ainda uma elevação destinada à contemplação dos fiéis.

Isto não significa que a Igreja primitiva não acreditasse na presença real de Cristo na Eucaristia. Pelo contrário, essa fé encontra-se claramente expressa nos escritos dos Padres da Igreja. O que ainda não existia era a forma ritual que hoje conhecemos.

O desenvolvimento medieval

Foi entre os séculos XII e XIII que a elevação da hóstia começou a fazer parte da liturgia romana.

Este período foi marcado por um extraordinário florescimento da teologia eucarística. As escolas catedrais e, mais tarde, as universidades aprofundaram a reflexão sobre o mistério da presença de Cristo na Eucaristia. Simultaneamente, algumas correntes doutrinais procuravam reduzir a presença de Cristo a um mero simbolismo, levando a Igreja a reafirmar com maior clareza a sua fé.

É neste contexto que desempenha um papel importante Eudes de Sully. No final do século XII, determinou que os sacerdotes elevassem a hóstia imediatamente após as palavras da consagração, para que todos os fiéis a pudessem contemplar. A prática difundiu-se rapidamente por França, Inglaterra, Alemanha e, posteriormente, por toda a Igreja Latina.

Curiosamente, muitos cristãos daquela época consideravam a contemplação da hóstia consagrada uma verdadeira graça espiritual. Tornou-se frequente chegar à igreja apenas para assistir à elevação, acreditando que esse olhar de fé trazia abundantes bênçãos. Surgiram também jaculatórias populares, como «Meu Senhor e meu Deus», ainda hoje recitada por muitos fiéis nesse momento.

A elevação do cálice

A elevação do cálice foi introduzida alguns anos mais tarde.

Inicialmente, o destaque recaía sobretudo sobre a hóstia, devido às discussões teológicas acerca da presença real de Cristo. Contudo, cedo se compreendeu que o cálice, contendo o Sangue de Cristo, deveria receber idêntica veneração.

Nos séculos XIII e XIV, a dupla elevação encontrava-se já difundida em praticamente toda a Europa Ocidental, tornando-se parte integrante do rito romano.

Foi igualmente nesta época que se generalizou o toque da campainha durante a consagração. Numa época em que as igrejas eram amplas, a liturgia era celebrada em latim e muitos fiéis não conseguiam acompanhar visualmente todos os gestos do sacerdote, o toque da campainha anunciava que se aproximava o momento culminante da Missa.

O testemunho dos livros litúrgicos

Os livros litúrgicos medievais passaram progressivamente a incluir rubricas precisas sobre a elevação.

O chamado Ordo Romanus, conjunto de descrições cerimoniais que influenciou profundamente a liturgia romana, testemunha a evolução dos gestos litúrgicos ao longo da Idade Média. Mais tarde, os diversos missais diocesanos e religiosos incorporaram definitivamente a elevação na celebração da Missa.

Após o Concílio de Trento, a uniformização da liturgia romana promovida pelo Missal de 1570 consolidou definitivamente esta prática em toda a Igreja Latina.

Uma teologia expressa através dos gestos

Na liturgia, os gestos falam tanto quanto as palavras.

Quando o sacerdote eleva a hóstia e o cálice, não pretende mostrar algo à assembleia como quem apresenta um objeto precioso. Trata-se antes de uma verdadeira apresentação de Cristo ao Seu povo. O olhar dos fiéis é conduzido para Aquele que acaba de Se tornar sacramentalmente presente sobre o altar.

Ao mesmo tempo, este gesto possui uma dimensão sacrificial. Cristo oferece-Se ao Pai pela salvação da humanidade, tornando sacramentalmente presente o único sacrifício da Cruz. A assembleia contempla esse mistério e une-se espiritualmente à oferta de Cristo.

A reforma litúrgica do século XX

A reforma promovida pelo Concílio Vaticano II conservou plenamente este gesto.

O atual Missal Romano continua a determinar que o sacerdote «mostra ao povo a hóstia consagrada, coloca-a novamente sobre a patena e faz a genuflexão em adoração». O mesmo acontece com o cálice. A sequência — consagração, elevação e genuflexão — permanece uma das expressões mais eloquentes da fé da Igreja na presença real de Cristo.

Um olhar de fé

Ao longo de mais de oito séculos, milhões de cristãos levantaram os olhos para a hóstia e para o cálice elevados durante a Missa. Esse olhar nunca pretendeu satisfazer uma curiosidade religiosa, mas tornar-se um verdadeiro ato de adoração.

Também hoje, quando o sacerdote eleva o Corpo e o Sangue do Senhor, a Igreja convida cada fiel a reconhecer, com os olhos da fé, Aquele que Se faz presente no altar. Nesse breve instante, o tempo parece suspender-se: a comunidade reunida une-se ao louvor do Céu e contempla o mistério central da fé cristã — Cristo morto e ressuscitado, verdadeiramente presente na Eucaristia.

É por isso que este gesto continua a ocupar um lugar privilegiado na liturgia. Mais do que uma tradição venerável, a elevação da hóstia e do cálice é uma profissão silenciosa da fé da Igreja e um convite permanente à adoração, à ação de graças e à comunhão com Cristo.

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