Entre o rótulo e a coerência: numa Igreja onde cada um faz o que quer, Cristo deixa de ser Cabeça
Há templos que
ecoam como conchas vazias.
O incenso sobe,
mas o cheiro da vaidade o atravessa.
As velas ardem,
mas a luz não aquece.
Fala-se de
liberdade como quem bebe um vinho doce demais — embriaga, mas não alimenta. A
verdade, amarga como remédio forte, é deixada na mesa. Cada qual mistura sua
própria fé como quem prepara um prato ao gosto do paladar: tira o sal da cruz,
adoça o pecado, tempera a consciência com aplausos.
A doutrina, que
deveria ser farol, é tratada como lanterna opcional.
A cruz, que
pesa e salva, torna-se ornamento leve.
O Evangelho,
que corta como espada, é dobrado como guardanapo.
E assim se
constrói uma igreja de espelhos: todos se olham, poucos se ajoelham. As
palavras são altas, mas a escuta é baixa. O som das opiniões faz um barulho
colorido — um ruído brilhante — que ofusca a voz discreta d’Aquele que não
grita.
Cristo
permanece, mas como pintura antiga numa parede moderna. Está ali — visível —
mas não é mais o eixo. O altar vira palco; o púlpito, tribuna; a assembleia,
plateia. A fé transforma-se em espetáculo onde cada um apresenta sua versão do
sagrado.
Quando cada um
faz o que quer, o Corpo se desfaz em membros soltos. Não há pulsação comum,
apenas batimentos isolados. O coração deixa de ritmar o conjunto; cada veia
inventa seu próprio compasso. E um corpo sem cabeça não dança — tropeça.
A misericórdia,
sem verdade, torna-se algodão que abafa a ferida sem curá-la. A verdade, sem
humildade, vira pedra arremessada. Mas o que vemos, tantas vezes, não é nem
pedra nem cura — é espuma. Espuma leve, branca, abundante, que parece mar, mas
não tem profundidade.
Há quem
carregue o nome como medalha no peito e viva como se a cruz fosse peso inútil.
Há quem deseje a ressurreição sem aceitar o silêncio do túmulo. Quer-se a
manhã, mas rejeita-se a noite.
O problema não
é a fragilidade — somos barro. O problema é quando o barro se proclama
escultor. Quando a criatura redefine o Criador. Quando o sussurro da própria
vontade soa mais alto que a Palavra.
E então o trono
muda de ocupante. Cristo é mantido como símbolo — uma moldura respeitável. Mas
quem governa é o gosto, o conforto, o aplauso.
Uma Igreja
assim pode ter música vibrante, discursos calorosos, luzes intensas. Pode até
parecer viva. Mas se Cristo não é a Cabeça, é apenas corpo agitado sem direção
— movimento sem rumo, chama sem calor, sino que toca e não chama.
Entre o rótulo
e a coerência há um deserto.
E atravessá-lo
exige sede.
Sede de verdade
que arde.
Sede de uma
água que nem sempre é doce, mas que salva.
Porque sem
Cristo no centro, resta apenas uma igreja moldada à nossa imagem — confortável
aos olhos, suave aos ouvidos — mas incapaz de sustentar o peso da eternidade.
Elisabete
Martins
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