São Francisco de Assis fundou a Ordem dos Franciscanos
São Francisco de Assis
São Francisco de Assis nasceu em Assis no ano de 1181-82.
Foi batizado com o nome de Giovanni (João, em português).
Era filho
de Pietro di Bernardone, um abastado comerciante de tecidos, e recebeu educação
de cavaleiro.
Depois de
ter prestado serviço na guerra por duas vezes, recolhe-se, aos vinte e quatro
anos, à solidão, dedicando-se a obras de caridade, vivendo numa pobreza
voluntária.
Em 1208, Jesus fala-lhe do crucifixo na igreja de São Damião, em Assis, repetindo por três vezes a frase que ficou famosa: "Francisco, repara minha casa, pois olhas que está em ruínas".
Em breve une-se em torno dele um grupo
de companheiros que partilham das mesmas ideias.
Para dar
ordem à vida da comunidade, Francisco cria uma regra, tirada de sentenças do
Evangelho, que é aprovada pelo papa Inocêncio III, em 1210, apesar da sua
inicial desconfiança para com os movimentos de ordens mendicantes.
Seguindo
este modelo, durante os anos posteriores fundam-se em toda a Itália, e depois
noutros países, comunidades de frades menores franciscanos de índole
semelhante.
Em 1212
instituiu-se uma comunidade de monjas, a das Clarissas, sob a direcção de Clara
de Assis, de origem nobre e amiga da infância de Francisco, que na regra
franciscana representa a «segunda ordem».
Encontro com o sultão Al-Kamil
Em 1219, Francisco dirige-se ao Oriente para, em antítese às cruzadas guerreiras, tentar converter ao cristianismo o sultão Al-Kamil.
Todavia, não consegue o seu
propósito, apesar do sultão se mostrar sensível às ideias franciscanas.
Uma vez regressado do Oriente, Francisco funda uma «terceira ordem» para homens e mulheres casados que desejem orientar a sua vida mundana de acordo com os ideais de santidade.
Uma extensão tão ampla do conceito de ordem a uma
comunidade laica representa uma completa inovação da história da Igreja.
No mesmo ano,
Francisco elabora, juntamente como seu amigo e cardeal Hugolino, o futuro papa
Gregório IX, uma regra ampliada para a sua ordem, na qual acolhe normas
absolutamente novas, tais como a vida em comunidade muito mais intensa, casas e
igrejas próprias, um severo período de experiência para os noviços, etc..
De facto, já longe da ideia originária, a ordem transforma-se num movimento europeu. A nova regra é consagrada pelo papa Honório III, em 1223.
São Francisco morreu no dia 3 de outubro de 1226, e foi canonizado a 16 de julho de 1228, por Gregório IX.
A Ordem dos Franciscanos
A Ordem dos Franciscanos diferencia-se sobretudo das outras ordens mais antigas pela pobreza radical, que se impõe não só a cada um dos monges, mas também a toda a comunidade, e bem assim pela circunstância de o monge não estar ligado a um determinado local.
Além disso, sobressai o ideal monástico de obediência
absoluta como mandamento supremo.
No
pensamento de Francisco, o exercício da direcção por parte do superior é
entendido como um serviço prestado ao subordinado, de forma a que este possa
realizar melhor a vontade de Deus.
A tarefa
principal da ordem é o cuidado das almas, e já não a oração e o trabalho em benefício
da própria comunidade, como acontecia nas ordens precedentes.
Particularidades sobre Francisco e seus ensinamentos
Em
relação a Francisco e aos seus ensinamentos são significativos os seguintes
pontos:
- Francisco
nunca foi sacerdote, permanecendo irmão leigo. Mostrava assim que a piedade franciscana
podia ser cultivada por qualquer pessoa desprovida de especial formação
teológica;
- as
bases da ordem eram a pregação e o trabalho;
- os
frades tinham de viver no meio das outras pessoas, ganhando o necessário para o
seu próprio sustento;
- pedir
esmola só era permitido como último recurso.
A piedade
franciscana encontrava a sua expressão máxima na adoração do Filho de Deus.
Toda a
Criação é para São Francisco o testemunho da obra divina. O «Cântico das
Criaturas» é apenas um modo particular de adorar o Senhor. (1)
*****
«Não amemos com palavras e com a língua, mas com obras e de verdade» (1Jo 3,18)
“Todos os
irmãos terão o cuidado de não caluniar ninguém e de evitar discussões.
Pelo contrário,
tentarão, com a graça de Deus, guardar silêncio.
Não discutirão
entre si nem com outras pessoas, mas esforçar-se-ão por responder humildemente:
«Somos servos inúteis» (Lc 17,10).
Não se
irritarão: «Quem se irritar contra o seu
irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar "imbecil" será réu
diante do sinédrio; e quem lhe chamar "louco" será réu da Geena do
fogo».
Amar-se-ão uns
aos outros, conforme a palavra do Senhor: «O
que vos mando é que vos ameis uns aos outros como Eu vos amei» (Jo 15,12).
Testemunharão o
amor que devem ter uns pelos outros com atos, conforme as palavras do apóstolo
João: «Não amemos com palavras e com a
língua, mas com obras e de verdade» (1Jo 3,18).
Não ultrajarão
ninguém; não difamarão, nem denegrirão ninguém; porque está escrito que o
Senhor odeia os «bisbilhoteiros e os
maldizentes»; serão modestos, «dando
sempre provas de amabilidade com todos os homens» (Tt 3,2; Rm 1,29-30).
Não julgarão
nem condenarão, como diz o Senhor (cf Lc 6,37).
Não julgarão
sequer os menores pecados dos outros, mas refletirão sobre os seus próprios
pecados na amargura do seu coração (cf Is 38,15).
Esforçar-se-ão por entrar pela «porta
estreita», pois o Senhor diz: «Esforçai-vos
por entrar pela porta estreita, porque Eu vos digo que muitos tentarão entrar
sem o conseguir» (Lc 13,24; Mt 7,13-14).”
São Francisco de Assis (1182-1226), fundador
da Ordem dos Frades Menores | Primeira regra, § 11
*****
Devemos ser simples, humildes e puros
O Pai
altíssimo, pelo seu arcanjo São Gabriel,
anunciou à santa e gloriosa Virgem Maria
que o seu Verbo, tão santo, digno e glorioso, ia descer do Céu. Do seio de
Maria tomou Ele a carne verdadeira da nossa humanidade e fragilidade.
Sendo Ele mais
rico que tudo, quis no entanto escolher a pobreza com sua Mãe bem-aventurada.
E ao aproximar
se a sua paixão celebrou a Páscoa
com os discípulos.
Depois rezou ao
Pai, dizendo: Pai, se é possível, afaste
se de mim este cálice.
Submeteu
todavia a sua vontade à vontade do Pai.
Ora, a vontade
do Pai foi esta: que seu Filho bendito e glorioso, que Ele nos tinha dado e que
por nós nascera, Se oferecesse pelo seu próprio sangue como sacrifício e hóstia
no altar da cruz, não por Si mesmo – Ele tinha criado todas as coisas – mas
pelos nossos pecados, deixando-nos o exemplo para seguirmos os seus passos.
E quer que
todos sejamos salvos por Ele e que O recebamos de coração puro e corpo casto.
Como são
felizes e abençoados os que amam o Senhor e praticam o que o mesmo Senhor diz
no Evangelho: Amarás o Senhor teu Deus,
com todo o teu coração e com toda a tua alma, e ao teu próximo como a ti mesmo.
Amemos portanto
a Deus e adoremo-l’O de coração puro e alma simples, porque é isso o que Ele
deseja acima de tudo, quando afirma: Os verdadeiros
adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade.
Por
conseguinte, todos os que O adoram devem adorá l’O em espírito e verdade.
Dia e noite
elevemos para Ele os nossos louvores e preces, dizendo: Pai-nosso, que estais
no Céu, porque é preciso orar sempre e não desfalecer.
Além disso,
façamos frutos dignos de penitência. Amemos o próximo como a nós mesmos.
Sejamos caridosos e humildes e dêmos esmola, porque a esmola lava as almas da
imundície do pecado.
Na verdade, os
homens perdem tudo o que deixam neste mundo, mas levam consigo o preço da sua
caridade e das esmolas que fizeram, e por elas receberão do Senhor recompensa e
digna remuneração.
Não devemos ser
sábios e prudentes segundo a carne, mas procuremos antes ser simples, humildes
e puros.
Nunca devemos
desejar estar acima dos outros, mas devemos antes ser servos e súbditos de toda
a criatura humana por amor de Deus.
E sobre todos
aqueles que assim procederem e perseverarem até ao fim, repousará o Espírito do
Senhor, que neles fará sua habitação e morada, e serão filhos do Pai celeste,
cujas obras imitam; eles são esposos, irmãos e mães de Nosso Senhor Jesus
Cristo.
Da Carta de São Francisco de Assis a todos os
fiéis (Opuscula, ed. Quaracchi, 1949, 87-94) (Séc. XIII)
*****
(1) História Universal Comparada - vol. VI (texto editado) | Imagem