São Gregório Magno, “cônsul” de Deus
“Tendo seguido
a carreira política, chegou a ser nomeado prefeito da Urbe. Abraçou depois a
vida monástica, foi ordenado diácono e desempenhou o cargo de legado pontifício
em Constantinopla.
No dia 3 de
setembro do ano 590 foi elevado à cátedra de Pedro, cargo que exerceu como
verdadeiro bom pastor no governo da Igreja, no cuidado dos pobres, na
propagação e consolidação da fé.
Autor e
legislador no campo da liturgia e do canto sacro, elaborou um sacramentário que
tem o seu nome e constitui o núcleo fundamental do Missal Romano. Deixou
escritos de caráter pastoral, moral, homilético e espiritual, que formaram
inteiras gerações cristãs, especialmente na Idade Média.
Morreu a 12 de
março do ano 604.” (SN de Liturgia)
São Gregório Magno
Em 590, aflitos com o miserável estado da Itália e de uma capital assolada pela inundação e a peste, o povo e o clero romanos elegem o patrício Gregório como Papa.
À
santidade do monge, ele acrescenta a experiência do diplomata - ele fora apocrisiário
em Constantinopla - e do funcionário - também fora prefeito de Roma.
Ameaçado
ao norte e ao sul pelos ducados lombardos, humilhado pelo orgulho de Bizâncio e
pela indignidade de muitos de seus colaboradores, o papado dá toda a impressão
de estar moribundo.
Mas
Gregório I - que a posteridade cognominou o Grande (Magno) - serve a cidade
terrestre tendo em vista edificar a Cidade de Deus.
Bispo de
Roma, ele toma em suas mãos ou controla as funções civis, sobretudo as relacionadas
com a assistência e a educação. Ao mesmo tempo, dedica grandes cuidados à
pregação, que quer prática: o tempo não é para os doutores, mas para os
pastores - o Tratado de Pastoral de Gregório I ficaria na história.
As obras
de Gregório Magno – os «Morais» e os «Diálogos» - haviam de ser lidas com
avidez pelos homens da Idade Média. E o canto «gregoriano» conservou-se vivo
até à Igreja dos nossos dias.1
Aliás, é
forçoso confessar que a exegese e a teologia, por sua pobreza, são testemunhas
da decadência geral da cultura antiga.
Fora dos
muros de Roma, Gregório substitui-se ao fraco exarca para tratar diretamente
com os lombardos. A sua correspondência revela que nada que se refira à vida da
cristandade o deixa indiferente.
Voltando
as costas para Bizâncio, deposita esperanças nos povos germânicos, mais jovens
e menos embrutecidos; os francos, os lombardos, que ele prepara pacientemente para
a conversão, os anglos, aos quais era muito apegado e para quem envia monges
romanos levados por Agostinho, que se fixa em Canterbury.
Em breve,
a Igreja anglo-saxã iria influenciar por seu turno todo o continente.
"Cônsul
de Deus": é assim que o autor desconhecido do epitáfio de Gregório
I o cognomina.
Numa Roma
esvaziada não apenas de sua glória, mas também de sua alma, Gregório e os seus
sucessores substituem-se ao Império derrocado: tornam-se os pedagogos do jovem
Ocidente.
Começa a
surgir a Igreja medieval. Pode-se até lamentar o seu endurecimento e o seu
paternalismo, bem como o facto de que vários pontífices tenham esquecido a bela
definição que Gregório I dera ao pontífice romano: Servus servorum Dei.
Mas foi
essa Igreja, apesar de tudo, que fez com que os seus cânones conciliares, infiltrando-se
no direito germânico, acabassem por humanizar os costumes bárbaros.
A um
mundo em que campeavam a crueldade e o estupro, ela apresentava a sabedoria de
seus monges e a pureza de suas virgens.
No
horizonte merovíngio, ela conseguiu fazer brilhar uma outra luz que não a dos
incêndios. (1)
*****
Aprendei a ser loucos para vos tornardes
sábios diante de Deus
"«E que eu não encontre um só homem sábio
entre vós» (Jb 17,10).
Apela-se à
sabedoria não querendo encontrar sábios [os amigos de Job] porque os homens
enganados pela suficiência da sua falsa sabedoria não podem chegar à verdadeira
sabedoria.
É deles que
está escrito: «Ai de vós, que sois sábios
aos vossos próprios olhos e prudentes diante de vós mesmos!» (Is 5,21).
É a eles que se
diz: «Não vos comprazais na vossa
própria sabedoria» (Prov 3,7; cf Rom 12,16).
Era também por
isso que, quando encontrava pessoas sábias segundo a carne, o grande pregador [Paulo] lhes pedia que adquirissem a
verdadeira sabedoria, começando por se tornar insensatos:
«Se algum de vós se considera sábio segundo o
julgamento deste mundo, faça-se insensato para se tornar sábio» (1Cor
3,18); e a própria Verdade diz: «Bendito
sejais, ó Pai, Senhor do Céu e da terra, que escondestes estas coisas aos
sábios e aos inteligentes e as revelastes aos pequeninos» (Mt 11,25).
Assim como
aqueles que são sábios diante de si mesmos não podem alcançar a verdadeira
sabedoria, também o bem-aventurado Job, que deseja a conversão daqueles que o
escutam, tem o direito de desejar que entre eles não se encontre um único
sábio; ou seja, aprendei a tornar-vos loucos diante de vós mesmos para serdes
verdadeiramente sábios diante de Deus."
São Gregório
Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja, Livro XIII, SC 212
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«Não vos esqueçais da hospitalidade» (Heb 13,1)
Dois dos
discípulos caminhavam juntos. Embora não acreditando, falavam sobre o Senhor.
De repente, Ele
apareceu-lhes, mas sob traços que não lhes permitiram reconhecê-Lo. [...]
Convidaram-no a
partilhar a sua pousada, como é costume entre viajantes [...]
Puseram a mesa,
apresentaram os alimentos e, na fração do pão, descobriram a Deus, que não
tinham ainda reconhecido na explicação das Escrituras.
Não foi,
portanto, a escutar os preceitos de Deus que foram iluminados, mas a
cumpri-los: «Não são os que ouvem a Lei que são justos diante de Deus, mas os
que praticam a Lei é que serão justificados» (Rom 2,13).
Se quisermos
compreender o que ouvimos, apressemo-nos a pôr em prática o que conseguimos
perceber.
O Senhor não
foi reconhecido enquanto falava; Ele dignou-Se manifestar-Se quando Lhe
ofereceram de comer.
Ponhamos, pois,
amor no exercício da hospitalidade, queridos irmãos; pratiquemos de coração a
caridade [...]: «Que permaneça a caridade fraterna. Não vos esqueçais da
hospitalidade, pois, graças a ela, alguns, sem o saberem, hospedaram anjos»
(Heb 13,1; cf Gn 18,1ss).
Pedro diz: «Exercei
a hospitalidade uns com os outros, sem queixas» (1Ped 4,9).
E a própria
Verdade nos declara: «Era peregrino e recolhestes-Me. [...] Sempre que
fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim mesmo o fizestes»
(Mt 25,35.40) [...]
Apesar disto,
somos tão preguiçosos diante da graça da hospitalidade!
Avaliemos,
irmãos, a grandeza desta virtude.
Recebamos
Cristo à nossa mesa, para podermos ser recebidos no seu festim eterno.
Demos a nossa
hospitalidade a Cristo que está no estrangeiro, para que, no dia do juízo, não
sejamos como estrangeiros que Ele não sabe de onde vêm (cf Lc 13,25), mas como
irmãos que em seu Reino recebe.
São Gregório Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja | Homilia 23; PL 76, 1182
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«A árvore mantém a esperança» (Job 14, 7)
“«A árvore mantém a esperança; depois de
cortada, voltará a reverdecer e os seus ramos despontarão» (Job 14,7-10).
[...]
Na Sagrada
Escritura, a árvore simboliza a cruz, mas também o homem, quer o justo quer o
injusto, e ainda a sabedoria de Deus encarnada.
Com efeito, é à
cruz que o profeta se refere quando diz: «Destruamos
a árvore no seu vigor» (Jer 11,19), referindo-se ao corpo do Senhor.
A palavra
«árvore» também evoca o homem, quer o justo quer o injusto, quando o Senhor
afirma pela boca do profeta: «Sou Eu, o
Senhor, que humilho a árvore elevada e elevo a árvore humilhada» (Ez
17,24), porque as suas palavras são conformes à palavra da Verdade: «Quem se elevar será humilhado e quem se
humilhar será elevado» (Lc 14,11). [...]
A árvore é
ainda imagem de Deus encarnado, sobre quem a Escritura diz: «É uma árvore de vida para quantos a alcançam»
(Pro 3,18), e que diz de Si próprio: «Se
assim é tratada a madeira verde, o que se fará ao lenho seco» (Lc 23,31).
[...]
«A árvore mantém a esperança; depois de
cortada, voltará a reverdecer».
Quando, na sua
Paixão, o Justo é atingido de morte por causa da verdade, recupera a vida na
frescura verde da vida eterna.
E aquele que,
neste mundo, encontrava a sua força na fé, encontra a sua força no alto, na
visão beatífica: «e os seus ramos
despontarão»; porque acontece muitas vezes que, diante da Paixão do Justo, os
fiéis se multiplicam num impulso de amor pela pátria celeste, experimentando a
frescura verde da vida espiritual na alegria de o terem visto agir neste mundo
com tal força de alma, para glória de Deus.”
São Gregório Magno (c. 540-604), papa,
doutor da Igreja | Livro XII, SC 212
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Constatando a sua humanidade, desdenhavam de acreditar no Criador!
«Até os
loucos me desprezam» (Job 19,18 Vulg).
Os sábios não
tinham fé na verdade, mas podemos dizer que o mesmo acontecia aos loucos, uma
vez que, constatando que fariseus e doutores da Lei desprezavam o Senhor, a
multidão os seguia nessa incredulidade: vendo nele o homem, desprezava as
lições do Redentor do mundo.
Com efeito, o
termo «loucos» designa por vezes os pobres do povo. [...]
Ora, o nosso
Redentor ignorou os sábios e os ricos deste mundo, pois vinha ao encontro dos
pobres e dos loucos.
Apesar disso,
observa nesta altura, como que para fazer crescer a sua dor: «Até os loucos
me desprezam»; ou seja, fui desprezado por aqueles mesmo que queria sarar,
assumindo a loucura da minha pregação.
Com efeito, a
Escritura declara: «Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a
Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que creem pela loucura da
pregação» (1Cor 1,21).
Pois o Verbo é
a sabedoria de Deus e aquilo a que, nesta sabedoria, se chama loucura é a carne
do Verbo: vendo a incapacidade dos homens carnais para alcançarem a sabedoria
de Deus por meio da prudência da carne, Ele quis sará-los pela loucura da sua
pregação, ou seja, pela carne do Verbo.
Por isso,
declara: «Até os loucos me desprezam».
Era o mesmo que
dizer abertamente: sou desprezado por aqueles mesmos que quis salvar sem receio
de passar por louco.
Na verdade, o
povo dos judeus, observando os milagres do nosso Redentor, honrava-O perante
estes sinais, dizendo: «Eis o Cristo»; porém, constatando a
fraqueza da sua humanidade, desdenhava de acreditar no seu Criador e dizia: «É
que Ele seduz as multidões» (Jo 7,12).
Bem podia Ele,
pois, acrescentar: «E, quando me afastava deles, insultavam-me» (Job
19,18 Vulg).
São Gregório
Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja | Livro XIV, SC 212
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Virado pela graça!
“Não me
desagrada seguir o exemplo de Paulo:
munido das cartas que tinha pedido para ir contra Cristo, dirigia-se a Damasco
quando, subitamente, a graça do Espírito Santo o inundou pelo caminho; perdendo
a sua crueza, Paulo muda e eis que se oferece, por Cristo, aos golpes que vinha
trazer aos cristãos.
Aquele que
ontem, vivendo segundo a carne, se empenhava em levar a morte aos santos do
Senhor tem hoje prazer em imolar a vida da sua própria carne para salvar a vida
desses mesmos santos.
As frias
maquinações da sua crueza transformam-se em caridade ardente e aquele que
blasfemava e perseguia descobriu uma humildade e uma piedade de pregador;
aquele que tinha por ganho sem igual matar a Cristo nos seus discípulos
considera agora que a sua vida é Cristo e o seu lucro, morrer por Ele.
Assim, a água
foi libertada e a terra foi refeita (cf Job 12,15), porque, mal acolheu a graça
do Espírito Santo, a alma de Paulo transformou-se, abandonando a sua
condição de ser imóvel e cruel.
Em sentido
contrário, o Senhor exprime as suas queixas contra Efraim pela boca do profeta:
«Efraim tornou-se um pão cozido sobre as
cinzas que não foi virado» (Os 7,8).
O pão cozido
sobre as cinzas fica com uma camada de cinzas por cima, e fica tanto mais sujo
quanto maior é o peso das cinzas.
E que peso tem
sobre si uma alma que só pensa nas coisas deste mundo? Talvez uma massa de
cinzas.
Mas, se essa
alma quiser ser virada, a face pura que tinha voltada para baixo fica voltada
para cima, uma vez sacudidas as cinzas que a cobriam.”
São Gregório
Magno (c. 540-604), papa, doutor da Igreja | Livro IX, SC 212
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O nosso Redentor foi um desconhecido
«Sou um desconhecido aos seus olhos» (Jb
19,15).
Não ser
conhecido na sinagoga era, para o nosso Redentor, estar em sua casa como quem
está de passagem.
É o que atesta
o Profeta com aquelas palavras: «Porque te comportas nesta terra como um
estrangeiro, como um viajante que apenas para a pedir dormida?» (Jr 14,8).
Visto que Ele
não foi escutado como Senhor, não foi tido como proprietário da terra, mas como
jornaleiro.
E, como um
viajante, parou apenas para pedir dormida: não levou para a Judeia senão alguns
homens e foi por causa da vocação dos gentios que fez essa viagem.
Portanto, Ele
foi, a seus olhos, alguém que está de passagem, visto que, pensando apenas
naquilo que conseguiam ver, eles foram incapazes de discernir no Senhor o que
não lhes era possível ver.
E, desprezando
a sua carne visível, não alcançaram a sua invisível majestade. É razão para
dizer: «Sou um desconhecido aos seus
olhos».
São Gregório Magno
(c. 540-604), papa, doutor da Igreja | Livro XIV
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(1) Fonte: “História
da Igreja”, Pierre Pierrard (texto editado, adaptado) | 1 “História breve do
Cristianismo”, José Orlandis | Imagem